Os Sensíveis – Viajantes, sonhadores e desejados
Autora: Lourença Baldaque
Formato: 13×20 (cm)
Número de páginas: 144 págs.
1ª Edição: Lisboa, Junho de 2022
Dois irmãos e uma casa de família ancestral.
«No final do dia, Sami e Benjamim sentiam que podiam ser felizes ali. Ou pelo menos que não seriam infelizes. Havia um conforto no ar da casa com um tanto de inexplicável. Era parte do fenómeno que a acompanhava.»
Lourença Baldaque nasceu no Porto em 1979. Publica ficção desde 2005. Na colecção Ficta Mundi publicou a peça de teatro Nikolai (fauve&rouge, 2020), à qual se junta o romance Viajantes, sonhadores e desejados que inicia o ciclo Os Sensíveis. Na Colecção Libelli publicou Crónica da Contemplação (2024).
«A casa estava em boas condições, era uma construção dos finais do século xix que se aguentava há mais de cem anos. Era da sua mãe que vinham as recordações da casa, pois Sami e o irmão nem eram nascidos quando tinham decidido vendê-la. As memórias haviam sido transmitidas pelo que lhes contavam ou por fotografias com história. A mãe afeiçoara-se a rotinas e pormenores, como as refeições que se faziam na cozinha, quando chegavam de viagem da cidade, aquecidos pelo fogão nos dias de geada e refrescados pelas paredes frias nos dias de calor. Era na cozinha que se acomodavam à temperatura e se aconchegavam às roupas de andar por casa, propícias a uma estadia de dias naquela quinta. Os camisolões da adolescência que já não se usavam a não ser para «bater», como se dizia, no terreno, os sapatos envelhecidos que só se usavam naquela terra, as calças de lã que tinham marcado uma época e que agora voltavam às montras das lojas, uns jeans desgastados combinados com t-shirts estampadas com refrões de Bob Dylan ou a demonstração de afecto por alguma cidade — I♥Paris, I♥Berlim, a sigla NYC —, que criavam desejo e desconforto nos mesmos jovens que sonhavam de dia e viviam de noite.
Sami soube por um acaso que esta casa estava à venda e apressou-se em conhecer as condições. Soube porque se encontrou com o seu amigo de infância, Miguel Dall, durante a sua estadia em São Paulo. Em diversos momentos, Miguel era um homem importante no seu caminho. Sami tinha confiança nesta peculiar personagem de ascendência escocesa, da qual se conheciam bem as suas origens, uma aristocracia habituada a heranças e a tudo o que isso acarreta. Hoje vivia do lucro pelo aluguer de um terreno que tinha em Lisboa, a uma empresa de construção. O valor que ele ganhava por mês dava-lhe para viver uma vida folgada e extravagante, motivo pelo qual se tornou num viajante exaustivo, fazendo entre duas a três viagens por ano. Viajara para o Brasil com uma companheira que evitava apresentar, ela tinha como que o cuidado de se afastar sempre que Dall se encontrava com algum conhecido. Não se sabia se eram zelosos da intimidade ou se havia a dificuldade em assumir a relação. De resto, muito se dizia de Dall, da ambiguidade da sua sexualidade ou da incapacidade em amar, ele era um campo fértil na imaginação dos outros. Dela sabia-se o nome, Maria João, e a profissão, contabilista. O facto de nunca ter deixado o seu emprego parecia ser motivo para ser levada um pouco mais a sério.
Dizia então que Sami e Dall se encontraram no centro da cidade de São Paulo, conforme tinham previsto dias antes. Ele, Dall, usava um chapéu de palha e uns calções floridos que fizeram Sami sorrir. Foi no rápido encontro no centro daquela cidade que Dall lhe falou desta casa como quem fala de um amor antigo que estava de novo disponível. Também ele tinha uma casa ancestral nesta região, onde fazia experiências com castas de uvas que resultavam num vinho caseiro, de qualidade duvidosa. Sabia que o actual proprietário vendia-a não porque não gostasse dela, mas porque contrariedades da vida o forçavam a regressar à cidade. E ali mesmo, naquele instante, a curiosidade atingiu-o — Sami sabia que quando se tratava de comprar uma casa não havia tempo a perder. Qual seria o preço? Dall apressou-se a ligar ao Antunes, uma espécie de mediador entre Dall e os seus negócios, na maioria das vezes sem se saber ao certo de que forma se desenrolavam. Pouco importa, o papel de Antunes era somente o de combinar um encontro com os actuais donos, na casa.
Sami sentiu uma felicidade que ele nunca experimentara, de quem vê uma inesperada orientação da vida, por caminhos até então insondáveis. Por momentos custou-lhe a acreditar na sorte, a sorte de Sami. Desde esse instante, tornavam-se mais reais do que nunca as memórias de uma casa que ele afinal nunca conhecera.»