O vinhateiro na sua vinha
Autor: Jules Renard
Tradução: Lourença Baldaque
Apresentação: Paulo Ferreira da Cunha
Formato: 13×20 (cm)
Número de páginas: 152 págs.
1ª Edição: Lisboa, Maio de 2021
Em O vinhateiro na sua vinha, Jules Renard parece ter redescoberto a ruralidade, mostrando uma outra face do seu país.
Jules Renard (Châlons-du-Maine, 1864 – Paris, 1910) escreveu prosa, poesia, peças de teatro e diversos textos para a imprensa. No Journal (1887-1910), um "diário íntimo" publicado postumamente, reflecte-se um estilo narrativo lacónico, poético, mordaz e humorista, características que marcaram a sua escrita. A sua obra não deixa de ser o testemunho de uma época e das impressões do autor sobre os seus contemporâneos.
O vinhateiro na sua vinha, na edição aqui apresentada, resulta de uma compilação «de narrações descritivas, de quadros, breves apontamentos, instantâneos fotográficos» (da apresentação), na sua maioria pré-publicados na imprensa, organizada pelo autor, e publicada na segunda edição revista e aumentada, de 1901.
Paulo Ferreira da Cunha (Porto, 1959) é Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça e Catedrático da Universidade do Porto (tendo suspendido estas últimas funções). Nas academias de Coimbra, Porto, Paris e São Paulo cursou direito, artes e letras. Autor de ficção, poesia, ensaio, filosofia, história e direito. Expôs pintura no Brasil e em Portugal. Prémio Jabuti.
"O RETRATO
Para fazer uma pose natural, sento-me como de costume, estendo a perna direita e a esquerda permanece dobrada, estendo uma mão e fecho a outra nas minhas coxas, fico de pé, rígido e de três quartos, fixo um ponto e sorrio.
— Porque sorri? — diz o fotógrafo.
— Estou a sorrir demasiado cedo?
— Quem lhe está a pedir que sorria?
— Vou poupar-lhe o trabalho de me perguntar. Conheço os costumes. Não estou a ser fotografado pela primeira vez. Já não sou uma criança a quem dizem: «olhe o passarinho». Eu sorrio sozinho, com antecedência, e posso sorrir durante muito tempo assim. Não me canso disso.
— Senhor — disse o fotógrafo — quer uma fotografia verdadeira, não uma imagem impessoal e vaga da qual os bajuladores só podiam dizer educadamente: «Sim, há qualquer coisa.»
— Quero uma fotografia — digo eu — onde haja tudo, semelhança, vivacidade, convincente, pronto a falar, gritar, sair da moldura, etc., etc., etc.
— Quem quer que seja — disse-me o fotógrafo — pare de sorrir. O homem mais feliz prefere fazer caretas. Ele faz caretas desde que tenha dores, desde que esteja aborrecido e desde que trabalha. Tanto faz caretas de amor como de ódio, e faz caretas de alegria. Sem dúvida que às vezes sorrimos para estranhos, e às vezes sorrimos para o espelho quando temos a certeza de que ninguém está por perto. Mas os seus familiares e amigos conhecem pouco de si a não ser uma figura taciturna, e se quiser dar-lhes um retrato pelo qual eu me responsabilizo, acredite senhor, faça uma careta."