Nikolai
Autor: Lourença Baldaque
Formato: 13×20 (cm)
Número de Páginas: 117 págs.
1ª Edição: Lisboa, Junho de 2020
Este livro, pensado para ser uma peça de teatro, transporta-nos para o cenário da Igreja da Misericórdia, em Caminha. Estamos no velório de um pintor que esteve exilado em Londres. São quinze as personagens que o evocam através de testemunhos e confissões, e a voz-off das personagens é o resultado de pensamentos ambíguos, de desejos inconsoláveis.
Lourença Baldaque nasceu no Porto em 1979. Publica ficção desde 2005. Na colecção Ficta Mundi publicou a peça de teatro Nikolai (2020) e o romance Viajantes, sonhadores e desejados (2022) que inicia o ciclo Os Sensíveis. Na Colecção Libelli publicou Crónica da Contemplação (2024).
"IGOR
Ele tinha dezoito anos quando o conheci através de amizades em comum, e me mostrou uma série de pinturas em que estava a trabalhar. Eu vi flores e rochas desenhadas por ele, no seu modo tão forasteiro de representar a natureza. A derradeira verdade estava nas cores que ele produzia e que em nada se adequavam às formas daqueles elementos. Eram parte de um sonho. Eu fiquei perturbado com as noções de estética de Niko, não havia ninguém como ele no meu largo círculo de emergentes. A maior dificuldade foi convencer os pais, habituados ao pensamento científico.
MISHA
É um clássico.
IGOR
Foi um estímulo. Disseram-lhe que podia seguir os estudos de pintura caso ele entrasse numa boa escola. Foi quando surgiu a oportunidade de ir para Londres. Nesse mesmo ano eu fui convidado a dar aulas na London Art School. Nós, os professores, éramos seus cúmplices. Naquele ano houve um grupo de alunos que eram artistas ainda sem essa consciência.
MISHA
O que quer dizer com isso?
IGOR
Distinguiam-se. Tinham um sentido de disciplina e de observação tão naturais como a chuva. É a fase mais crítica na vida de um criador, esta em que ganham a consciência dos seus atributos ou desenvolvem uma abjecta artificialidade. O difícil é manter uma postura coerente mas Niko conseguiu. Manteve o foco na sua própria forma de arte. Desenvolveu foi um temperamento variável; por vezes disparava uma qualquer provocação com uma singeleza que nos desconcertava."