Crónica da Contemplação
Autora: Lourença Baldaque
Ilustrações: Lourença Baldaque
Formato: 13×20 (cm)
Número de páginas: 96 págs.
1ª Edição: Lisboa, Julho de 2024
Em Crónica da Contemplação, a autora observa tempos e ilustra lugares que lhe são próximos, em busca de um imaginário e de uma expressão artística. Retraça e evoca retratos e passagens, associando-os ao viver, à experiência criativa, a um pensar filosofante. Entre a crónica geográfica, memórias breves, um registo genealógico, um texto documental, esta narrativa tem como finalidade constante a vital procura de um tempo literário.
Lourença Baldaque nasceu no Porto em 1979. Publica ficção desde 2005. Na colecção Ficta Mundi publicou a peça de teatro Nikolai (2020) e o romance Viajantes, sonhadores e desejados (2022) que inicia o ciclo Os Sensíveis.
"Livornesi
Durante a temporada que passei em Itália, e da qual falarei adiante, fiz uma série de viagens de comboio pelo país. Uma delas foi de Salerno a Siena, com paragem em Pisa. A viagem durou uma noite, pelo que uma amiga francesa que me acompanhava e eu tivemos de dormir numa carruagem que me fazia lembrar o cenário de um policial de Agatha Christie. De manhã, acordei com a luz do dia que espreitava debaixo da porta do nosso compartimento. O comboio estava parado, levantei-me para espreitar o corredor, e a placa que anunciava a paragem em que estávamos, encontrava-se na minha frente: «Livorno».
Não estivesse acompanhada eu teria saído ali mesmo. Foi de Livorno que partiu no século XVIII um jovem chamado Francisco de apelido Baldaque, em direcção a Lisboa. Desconheço se existem retratos seus deste tempo, por isso o imagino à maneira do seu contemporâneo, o pintor Gaspare Traversi, aqui com cerca de vinte e oito anos de idade. Esta Itália está distante no tempo, mas o apelido que trago comigo traça uma relação com esse passado que se presta ao romanesco. Desta «cidade ideal», assim pensada pela família Médici, ficaram apenas vestígios. Seria bombardeada pelos Aliados entre 1943 e 1944, dada a sua importância estratégica, militar e portuária.
De Livorno guardo a imagem do filme As Noites Brancas de Visconti, a partir do livro de Dostoievski passado em São Petersburgo. É uma Livorno teatral, fantasmal, desenhada a carvão, onde tem lugar uma ambígua história de amor.
Francisco daria aulas no Colégio dos Nobres, entre outros trabalhos que prestou nesta instituição, nomeadamente na área das finanças. Fixou-se nesta cidade onde se casou e teve vários filhos, um deles partiu para o norte do país e é dele que eu descendo. Em Lisboa, a memória de Francisco e da sua família está preservada na toponímia da rua onde viveram.
É uma família numerosa com muitas ramificações e uma complexa genealogia. As grandes famílias geralmente têm um pouco de tudo, e esta família com antecedentes em Livorno tem muitas profissões, com elementos de um estilo diria que clássico.
A primeira vez que fui a Barcelona, no início dos anos 2000, fiquei em casa de uma senhora alemã que o meu pai conhecia da sua juventude. No âmbito de um programa de intercâmbio, ela tinha vivido uma temporada em casa dos meus avós, Leonor e Alberto, quando, nos anos cinquenta, foi dar aulas de língua alemã e estudar a língua portuguesa na cidade do Porto. Os meus avós viviam com os seus sete filhos, e quando a conheci, contou-me um pouco do ambiente que se vivia naquela casa, o que foi fascinante de ouvir. Ela foi acolhida pelo casal como se fosse mais uma filha, e recordava o temperamento sereno dos meus avós. Já o ambiente da cidade que à época conhecera fazia lembrar a elite retratada no romance de Thomas Mann, Os Buddenbrook. E ela parecia entregar-me um parecer, como se tivesse guardado aquela memória durante todos aqueles anos, e eu fosse a interlocutora por que esperava. Naquele tempo eu já lera o livro e, aliás, se houve curiosidade que o romance me trouxe, foi precisamente o modus vivendi retratado na obra."