A cortina carmesim
Autor: Jules Barbey d’Aurevilly
Tradução e ilustração de capa: Lourença Baldaque
Formato: 13×20 (cm)
Número de páginas: 72 págs.
1ª Edição: Lisboa, Dezembro de 2023
Jules Barbey d’Aurevilly nasceu no dia dos mortos, o que para o autor tinha um significado particular, um destino que o aproximou de uma linguagem sobrenatural, fantástica e gótica, que caracteriza o seu estilo literário.
O narrador começa por nos apresentar o capitão e visconde de Brassard como um dandy, contextualizando historicamente — enriquecendo esta narrativa, tão literária quanto militar — o seu percurso entre as diversas batalhas e personalidades da época, na luta pelo poder em França. Na sua juventude, Brassard fora um belo, audacioso e sedutor militar, que começou a sua jornada com Napoleão I e encerrou-a com a chegada de Luís-Filipe I ao poder. Cerca de trinta e cinco anos após a batalha de Leipzig, o narrador e o visconde de Brassard partilham casualmente a mesma diligência que os conduz para o oeste. No entanto, um incidente com uma roda obriga-os a fazer uma paragem numa pequena e silenciosa cidade na Normandia. Neste ambiente nocturno destaca-se uma luz vinda de uma janela com uma cortina carmesim. É nesse cenário que Brassard inicia o seu relato confessional, remontando à idade de dezassete anos, quando foi nomeado sub-tenente «num simples regimento de infantaria de linha». Naquele tempo, Brassard vivia a despreocupação e a inexperiência acompanhadas por uma extasiante «sensação do uniforme».
(da introdução, Lourença Baldaque)
"Really.
Há muitos anos eu ia caçar aves aquáticas nos pântanos do oeste, e como não havia caminhos-de-ferro na região, apanhava a diligência de *** que passava no cruzamento do castelo de Rueil e que, naquele momento, tinha um só passageiro. Esta pessoa, muito notável para todos os efeitos, e que eu conhecia por tê-la encontrado muito pelo mundo, era um homem que vos peço a permissão de chamar de visconde de Brassard. Precaução provavelmente inútil! As poucas centenas de pessoas que se auto-denominam «sociedade» em Paris são bem capazes de revelar aqui o seu verdadeiro nome... Eram cerca das cinco horas da tarde. O sol brilhava com a sua luz suave numa estrada empoeirada, delimitada por choupos e prados, sobre a qual nos precipitámos a galope de quatro vigorosos cavalos, cujas garupas musculadas víamos erguerem-se fortemente a cada golpe do chicote do postilhão — do postilhão, a imagem da vida, que sempre estala demasiado o seu chicote na partida!
O visconde de Brassard estava naquele momento da existência em que já não fazia mais estalar o seu... Mas é um daqueles temperamentos dignos de serem ingleses (ele foi educado em Inglaterra), que, mortalmente feridos, nunca o reconheceriam, e morreriam alegando estar vivos. É costume no mundo, e mesmo nos livros, o hábito de ridicularizar as pretensões à juventude daqueles que passaram essa idade feliz da inexperiência e da loucura, e tem razão, quando a forma dessas pretensões é ridícula; mas quando não o é, — quando, pelo contrário, elas se impõem como o orgulho que não quer decair e que o inspira, não digo que não seja insensato, pois é inútil, mas é belo como tantas outras coisas insensatas!... Se a sensação da guarda que morre e não se rende é heróica em Waterloo, não o é menos perante a velhice, que não tem a poesia das baionetas para nos atingir. Agora, para as cabeças construídas de uma certa maneira militar, nunca se render é, em relação a tudo, sempre a questão por inteiro, como em Waterloo! O visconde de Brassard, que não se rendeu (ele ainda está vivo, e direi como, mais tarde, pois vale a pena sabê-lo), o visconde de Brassard era então, no minuto em que entrei na diligência em ***, o que o mundo, feroz como uma jovem mulher, chama desonestamente «um velho sedutor»."